Diferença entre o Paisagismo Tradicional e o Paisagismo Naturalista


Pau Santo (Kielmeyera regalis)
Foto de
@oscordados.mss

Essa publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”.

Pra entender essa publicação, é preciso ter lido primeiro a publicação “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”.


Falando de maneira bem resumida, a principal diferença entre o paisagismo tradicional e o paisagismo naturalista está relacionada a três questões centrais: o dinamismo do jardim, o nível de manutenção exigido e o valor que esse espaço assume ao longo do tempo.

Enquanto um modelo busca estabilidade e controle constante, o outro aceita a mudança e o desenvolvimento natural das plantas. Essas diferenças influenciam diretamente a forma como o jardim evolui, como é manejado e qual papel ambiental, social e estético ele desempenha no espaço.

Definição de Paisagismo Tradicional

Nesse material/curso/guia que eu fiz para vocês, o Paisagismo Tradicional será abordado a partir daquilo que o brasileiro médio (ou seja, o povão) está acostumado a ver no dia a dia. Que nada mais é, que um conjunto genérico de práticas paisagísticas (uma mistura de diferentes estilos) aplicadas de diversas formas, sem considerar suas origens históricas ou seus propósitos originais.

O objetivo deste guia/curso gratuito é apresentar informações de forma bem resumida e acessível, voltadas a pessoas que não possuem nenhum conhecimento em paisagismo. Por esse motivo, o conceito de Paisagismo Tradicional é tratado aqui de maneira super simplificada.

Jardim estático vs Jardim dinâmico

No paisagismo tradicional, o que predomina é a busca por uma estabilidade controlada. As plantas são tratadas quase como objetos fixos, que devem manter ao longo do tempo as mesmas cores, formas e texturas previstas no projeto inicial. As interações entre plantas e outros elementos são cuidadosamente planejadas, e mudanças naturais que ocorrem sem a intervenção humana não são desejadas, sendo constantemente corrigidas por meio de podas, substituições e manutenção intensa.

Jardim tradicional de Topiaria
Foto de
 
iStockphoto

Já no paisagismo naturalista, o que prevalece é a dinâmica natural da vegetação. As plantas são entendidas como organismos vivos, com crescimento, comportamento e relações próprias. Nesse modelo, aceita-se que as espécies interajam entre si e se modifiquem ao longo do tempo. O controle humano é mais leve e estratégico, pois a estabilidade do jardim acontece quando as condições ambientais (como luz, água e nutrientes) estão bem ajustadas às necessidades das espécies escolhidas.

Jardim naturalista em Oudolf Detroit
Michigan - EUA
Foto de
 
meristemhorticulture.com


Alta manutenção vs Baixa manutenção

No paisagismo tradicional, as plantas são usadas principalmente como elementos decorativos e, por isso, precisam apresentar um resultado visual rápido. Para alcançar esse efeito, a intervenção humana costuma ser intensa, com uso frequente de fertilizantes, irrigação constante e pesticidas sempre que necessário. Esse modelo exige alta manutenção ao longo do tempo e acaba gerando um custo ambiental elevado.

Jardim tradicional Garden Park Gramado
Foto de
 
gramado.blog.br

No paisagismo naturalista, as plantas são vistas como organismos vivos e dinâmicos, cada uma com seu próprio ritmo de crescimento. Embora exista um resultado esperado para o jardim, há respeito pelo tempo natural de desenvolvimento das espécies. Por isso, a intervenção humana tende a ser menor e mais pontual.

A irrigação e o uso de fertilizantes são reduzidos ou até desnecessários, pois as espécies escolhidas já são adaptadas às condições naturais da região, como clima, solo e disponibilidade de água. O uso de pesticidas também é mínimo ou inexistente, já que a seleção das plantas busca criar um sistema equilibrado, capaz de competir naturalmente com espécies invasoras ao longo do tempo.

Nesse tipo de paisagismo, entende-se ainda que alterações causadas pelo ambiente (como desbastes naturais, movimentação do solo e o surgimento de novas espécies) fazem parte da dinâmica do jardim e do próprio processo de evolução do projeto.

Jardim Naturalista
Foto de Tony Spencer - The New Perennialist

Só para reforçar um ponto importante:

Baixa manutenção não significa ausência de manutenção, tudo bem? O Paisagismo Naturalista não é sinônimo de área abandonada, nem de projeto improvisado.

Embora exista um método básico para a criação de um jardim naturalista, há diferentes formas de aplicá-lo, e cada projeto deve ser pensado de acordo com o local e suas condições específicas.

No começo de qualquer projeto, o trabalho será maior. Nos primeiros meses, as manutenções (adubação e pequenos ajustes) acontecem com mais frequência para que as plantas se estabeleçam bem. Só depois disso, que a necessidade de intervenção diminui naturalmente.

Valor estético vs Valor socioambiental

No paisagismo tradicional, o foco principal está na aparência visual do jardim. O projeto é pensado quase exclusivamente para causar impacto estético. Aspectos como a origem das plantas (se são nativas ou não), sua importância ambiental (se atraem a fauna local) ou seu papel ecológico (como proteção do solo) costumam ser pouco considerados ou até ignorados.

Jardim tropical tradicional
Foto de
 
www.puravidatropicalgardens.com

Já no paisagismo naturalista, a estética anda junto com preocupações ambientais e sociais. A origem das espécies é um fator importante, havendo preferência por plantas nativas da região, que tendem a ser mais resistentes e melhor adaptadas às condições locais. A escolha das espécies também leva em conta sua relação com a fauna e com as pessoas, como plantas que oferecem alimento, abrigo ou possuem uso tradicional e medicinal.

Além disso, o impacto ambiental do jardim é considerado, especialmente diante do cenário atual de mudanças climáticas. A proposta não é copiar a natureza exatamente como ela é, mas observar seus padrões e dinâmicas e reinterpretá-los, criando combinações de plantas que funcionem bem em cada contexto e ao longo do tempo.

Jardim naturalista High Line Garden
Nova York 
Foto de
 
Richard Hayden


Paisagismo Naturalista vs Paisagismo Regenerativo

Paisagismo é toda atividade que muda a aparência visível de um lugar da terra (o nosso planeta). Sempre que alguém organiza, planta, constrói ou altera um espaço da terra para alcançar algum objetivo, isso já é uma forma de paisagismo.

Paisagismo de Roberto Burle Marx
Foto de
 
www.culturedmag.com

O que costuma gerar confusão é que existem várias atividades que fazem mudanças na paisagem. Permacultura, paisagismo regenerativo, agricultura sustentável e outras práticas ambientais são exemplos disso. Todas elas atuam sobre a terra e transformam o espaço.

À primeira vista, essas atividades podem parecer iguais, porque todas modificam a paisagem. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que elas são diferentes. A diferença não está apenas no resultado final (a mudança na paisagem), mas também nos princípios que orientam cada prática.

Cada atividade possui objetivos e pilares próprios. Por isso, mesmo atuando no mesmo lugar, elas tomam decisões diferentes sobre como intervir no espaço. Esses pilares podem variar bastante (muito mesmo), mas, de forma geral, os principais são: (1) Ecologia, (2) Agricultura, (3) Estética, (4) Designer e (5) Paisagem.

Entender esses pilares ajuda a perceber por que práticas diferentes produzem resultados diferentes, mesmo quando trabalham sobre a mesma área.

(1) Pilar da Ecologia

A Ecologia é uma área das Ciências da Natureza, assim como a Física e a Química. Ela se dedica a estudar o meio ambiente e a biodiversidade, observando como os seres vivos se relacionam entre si e com o espaço onde vivem.

Esse estudo pode acontecer em diferentes escalas. A ecologia analisa desde os indivíduos, passando por populações e comunidades, até chegar aos ecossistemas e, em uma escala maior, à biosfera como um todo.

Estudo das populações de coelhos
Foto de
 
open.oregonstate.education

Na maioria das atividades que modificam a paisagem, o foco está na escala dos ecossistemas. Esse campo é conhecido como Ecologia de Ecossistemas e serve de base para estudos e práticas voltadas a temas como: (1) Serviços Ecossistêmicos; (2) Sustentabilidade; (3) Restauração Ecológica; (4) Conservação da Biodiversidade e (5) Mudanças Climáticas.

Por isso, os conceitos ligados à Ecologia de Ecossistemas formam um dos principais pilares da filosofia ambientalista. Eles ajudam a orientar decisões que buscam equilibrar o uso da paisagem com a manutenção dos processos naturais.

(2) Pilar da Agricultura

A Agricultura é a prática voltada ao cultivo de plantas e à criação de animais. Seu principal objetivo é produzir alimentos, como frutas, grãos, legumes e carnes, além de produtos não alimentares, como fibras, madeira e outras matérias-primas.

Plantação de Trigo
Foto de
 
David Condomínios

Para que essa produção aconteça, a agricultura utiliza conhecimentos das Ciências Agrárias, como a Agronomia, a Zootecnia e a Medicina Veterinária. Essas áreas ajudam a entender como manejar o solo, as plantas e os animais de forma eficiente.

De modo geral, a agricultura está focada em produtividade, manejo e aproveitamento dos recursos naturais. As decisões tomadas nesse campo influenciam diretamente a paisagem, já que envolvem preparo do solo, escolha de espécies, irrigação e uso do espaço.

(3) Pilar da Estética

A Estética é um campo do conhecimento que estuda o que é a beleza e como ela é percebida pelas pessoas. Para isso, ela se apoia tanto na filosofia quanto na ciência.

A Mona Lisa, de Leonardo da Vinci
Foto de
 
C2RMF

A filosofia contribui com a parte conceitual, ajudando a refletir sobre gosto, criação e julgamento estético. É por meio dela que se discute a beleza como expressão artística e cultural, algo que varia de pessoa para pessoa e de contexto para contexto.

Já a ciência entra para explicar como essa percepção acontece. Ela investiga como os sentidos e o cérebro interpretam formas, cores, texturas e experiências visuais, influenciando a forma como percebemos os objetos e os ambientes.

Assim, a estética une pensamento filosófico e conhecimento científico para entender por que certos espaços, imagens ou paisagens são considerados belos e como essa sensação é construída.

(4) Pilar do Designer

O Design é um campo do conhecimento que usa princípios da estética e da ciência para transformar uma ideia inicial em um projeto concreto.

Tudo começa com um conceito, que é a ideia central do projeto. A partir desse conceito, o design desenvolve soluções no papel (ou no meio digital), organizando formas, funções e usos. Esse projeto pode resultar em um produto, um ambiente, um sistema ou até mesmo uma experiência.

Designers fazendo um projeto
Foto de
 
domaineluxe.com

A estética entra na forma como o público percebe e sente o projeto. Ela está ligada à experiência subjetiva, ou seja, às emoções, sensações e interpretações que podem variar de pessoa para pessoa.

Já a ciência está relacionada ao funcionamento do projeto. Ela cuida da parte objetiva: entender necessidades, resolver problemas e garantir que aquilo que foi projetado funcione corretamente.

Dessa forma, o design equilibra emoção e razão, unindo aparência, experiência e funcionalidade em uma única proposta.

(5) Pilar da Paisagem

A Paisagem pode ser entendida como um “pano de fundo” dinâmico, ou seja, um espaço da superfície da Terra que está sempre visível e em constante transformação.

Ela é considerada um pano de fundo porque é aquilo que todos conseguem ver: o conjunto de elementos que forma o cenário de um lugar. Ao mesmo tempo, cada paisagem possui uma identidade própria, definida pelas suas características específicas.

Parque Nacional Grand Teton, Wyoming (EUA)
Foto de
 
www.expedia.com.br

Essa identidade é formada por diferentes tipos de elementos. Existem os elementos físicos, como montanhas, rios e relevo; os elementos vivos, como a fauna e a flora; os elementos humanos, que incluem as formas de uso e ocupação do solo; e os elementos transitórios, como a iluminação natural e as condições climáticas, que mudam ao longo do tempo.

A combinação desses elementos pode gerar diferentes percepções. Dependendo de como estão organizados, eles podem causar um impacto estético positivo, sendo vistos como belos, ou negativo, quando não despertam essa sensação.

Fundamentos e Propósitos das Atividades

Um jardim é um espaço que foi planejado, onde as plantas são cultivadas e organizadas com algum nível de controle, sempre com um ou mais propósitos definidos (como a exibição). Ele não é apenas um conjunto de plantas, mas o resultado da combinação de vários conhecimentos trabalhando juntos.

Jardim de Flores
Foto de 
Rept0n1x

Cada parte do jardim está ligada a um pilar específico:

(1) O espaço se relaciona com o pilar da Paisagem, pois envolve o lugar, o contexto e o cenário onde o jardim está inserido.
(2) As plantas se conectam ao pilar da Ecologia, já que envolvem espécies, biodiversidade e relações com o ambiente.
(3) O cultivo está ligado à Agricultura, pois trata do manejo, do crescimento e da manutenção das plantas.
(4) A exibição das plantas se relaciona com a Estética, que influencia como o jardim é percebido visualmente e emocionalmente.
(5) O planejamento faz parte do Design, responsável por organizar ideias, definir estratégias e transformar tudo isso em um projeto funcional.


Práticas como Permacultura, Paisagismo Naturalista, Paisagismo Regenerativo e Agricultura Sustentável se apoiam nesses mesmos pilares básicos. É justamente por isso que elas parecem tão parecidas à primeira vista.

A principal diferença entre essas abordagens não está nos pilares em si, mas no propósito inicial de cada uma, ou seja, no objetivo principal que orienta as decisões e as intervenções no espaço.

É comum existirem opiniões diferentes sobre qual seria o verdadeiro propósito de cada prática. Ainda assim, fazendo uma síntese bem direta, é possível apontar qual é o foco central de cada uma delas.

Paisagismo Tradicional

Quando o objetivo principal de um projeto de jardim é atender, acima de tudo, aos princípios da Estética, ou seja, à busca da beleza como forma de arte, estamos falando do Paisagismo Tradicional.

Jardim Botânico da Madeira (Portugal)
Foto de
 
Herói da Vila

Nesse tipo de abordagem, o Designer atua diretamente sobre a Paisagem, organizando e modificando o espaço para gerar impacto visual, harmonia e apreciação estética. O foco do projeto está na aparência do jardim e na experiência visual que ele proporciona, dando maior ênfase ao pilar da Estética.

Paisagismo Naturalista

Quando o objetivo principal de um projeto de jardim busca atender, ao mesmo tempo, aos princípios da Estética (a beleza como forma de arte) e da Ecologia (sustentabilidade, conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas), estamos falando do Paisagismo Naturalista.

Jardim Coan Waterfront
Ilha Camano, Condado de Island, Washington (EUA)
Foto de
www.lankfordarchitecture.com
 

Nesse tipo de abordagem, o Designer atua modificando a Paisagem de forma equilibrada, dando a mesma importância à Estética e à Ecologia. Esses dois pilares caminham juntos e têm o mesmo peso, resultando em jardins que são visualmente agradáveis e, ao mesmo tempo, ecologicamente responsáveis.

Jardins naturalistas simplificados, que utilizam exclusivamente espécies nativas e que foram criados com o objetivo de restabelecer a vegetação original e proteger o solo em áreas que foram alteradas pela ação humana, podem ser considerados jardins regenerativos.

Paisagismo Regenerativo

Quando o objetivo principal de um projeto de jardim é atender primeiro aos princípios da Ecologia (como sustentabilidade, restauração ecológica, conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas) e depois aos princípios da Estética (a beleza como forma de arte), estamos falando de Paisagismo Regenerativo.

Jardim Regenerativo
Foto de
 
www.biologicdesign.co.uk

Nesse caso, o Designer atua modificando a Paisagem, considerando tanto a Ecologia quanto a Estética, mas com pesos diferentes. A Ecologia tem maior importância e vem em primeiro lugar, tendo como foco principal a restauração ecológica. Somente após esses aspectos ecológicos estarem bem definidos é que a Estética passa a ser trabalhada.

Permacultura

Quando o objetivo principal de um projeto de jardim é atender principalmente aos princípios da Ecologia (como serviços ecossistêmicos, sustentabilidade, restauração ecológica, conservação da biodiversidade e mudanças climáticas) junto aos princípios da Agricultura, como a produção de alimentos e matérias-primas, estamos falando de Permacultura.

Jardim de Permacultura
Foto de 
permaculturepractice.com

Nesse tipo de atividade, o Designer atua modificando a Paisagem, dando igual importância à Ecologia e à Agricultura. Esses dois pilares estão alinhados e caminham juntos, tendo o mesmo peso dentro do projeto.

O pilar da Estética também está presente, porém tem menor importância, pois o foco principal está na produção baseada na filosofia do ambientalismo. Nesse contexto, os serviços ecossistêmicos ganham grande destaque, já que são uma das bases da Agricultura Sustentável, da qual surgiu a Permacultura.


Outras publicações importantes sobre Paisagismo Naturalista

(3) A Escolha das Espécies no Paisagismo Naturalista

Outras publicações importantes sobre Paisagismo Tradicional

(1) Noções Básicas - Paisagismo
(2) Elementos da Comunicação - Paisagismo
(3) Princípios da Estética - Paisagismo


Esta publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”. Todas as referências utilizadas neste conteúdo estão listadas no guia. 

Comentários

Mais visitadas

Qual é o aquário ideal para o peixe Betta ???

Como cuidar de um Jabuti ???

Como fazer um cercado de cano PVC - Porquinho da índia

Diferentes Tipos de Plantas Epífitas e suas Adaptações

Entre em contato comigo

Nome

E-mail *

Mensagem *