As 3 Regras Básicas do Paisagismo Naturalista


Lobeira (Solanum lycocarpum)
Foto de
@oscordados.mss

Essa publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”.

Pra entender essa publicação, é preciso ter lido primeiro a publicação “A Organização do Paisagismo Naturalista”.


No paisagismo naturalista quase não existem regras fixas, e sim princípios que ajudam a orientar as diferentes formas de trabalhar com esse tipo de jardim. 

Mesmo assim, alguns desses princípios são tão importantes que, aqui, vou tratá-los como regras básicas.

1º Regra – Ordem dos Grupos

A primeira etapa na escolha das espécies é definir o grupo estrutural. Nessa fase, as plantas devem ser selecionadas principalmente pela forma e estrutura, e não pela cor, pois a forma precisa se manter estável por muitos meses, enquanto a cor muda ao longo das estações.

Em seguida, escolha o grupo basal e, depois, o grupo temporário. É natural que, com o tempo, um grupo avance sobre o outro, por isso é importante optar por espécies que não sejam muito invasivas/agressivas (infelizmente nem toda espécie nativa vai ser adequada, é preciso fazer testes).

Representação da escolha dos grupos
Foto de @oscordados


2º Regra – Cálculos de Mudas por Área Disponível

A quantidade de espécies a ser utilizada varia conforme o tamanho da área disponível, portanto cada caso é um caso, mas todos utilizam as mesmas regras básicas de cálculo. Levaria muito tempo para ensinar como fazer todos os cálculos necessários aqui, então vou indicar onde você pode aprender isso gratuitamente.

O site www.omnicalculator.com oferece uma calculadora automática de mudas. Basta informar as dimensões da área, e a ferramenta retorna a quantidade estimada de mudas necessária para cada espaço.

Além do site, os canais:  


Os 3 vídeos ensinam noções sobre espaçamento de mudas e cálculo de metros quadrados.

3º Regra – A Regra dos 70%

De todas as regras, essa sem dúvidas é a mais importante. Você sempre deve seguir a “regra dos 70%” para garantir equilíbrio e harmonia visual do seu projeto.

Veja esse projeto feito pela Dig Your Garden Landscape Design, que claramente segue a “regra dos 70%”. Os projetos são feitos na Califórnia, e as espécies escolhidas são aquelas que suportam baixa quantidade de água e baixa manutenção.

Plantio do projeto da Dig Your Garden Landscape Design
Foto de
 
www.digyourgarden.com


Estágio final do projeto feito pela Dig Your Garden Landscape Design
Foto de
 
www.digyourgarden.com

Para organizar o espaço, você deve dividir a área em blocos. Os grupos temporários devem ser posicionados ao redor dos grupos estruturais.

A regra diz que 70% das plantas do jardim devem ser dominantes, enquanto as demais (os outros 30%) servem apenas para preencher o espaço.

Seguindo essa lógica, o grupo estrutural (G.E.) deve ocupar cerca de 70% da composição, ou seja, aproximadamente 70% de toda a área do jardim. Os 30% restantes ficam com o grupo temporário (G.T.).

O grupo basal (G.B.) não entra nesse cálculo, pois ele obrigatoriamente deve estar distribuído entre todos os grupos.

O ponto importante é que as plantas do grupo temporário também podem ser dominantes, e isso deixa tudo mais complicado.

Elas são consideradas dominantes, porém são temporárias, porque possuem caules e estruturas mais flexíveis (ou seja, são plantas frágeis), mas mesmo assim exercem a dominância em algum momento de suas vidas. Isso precisa ser levado em conta na escolha das espécies utilizadas e no desenho do projeto.

Se você está começando agora, facilite a sua vida: deixe 70% da área do jardim destinada ao grupo estrutural e os outros 30% para o grupo temporário, independentemente da existência de plantas dominantes (temporárias).

O seu primeiro projeto deve ser o mais simples possível.

Faça os desenhos da forma que for mais prática para você. Pode ser no papel, com lápis, ou no computador (eu mesmo fiz todos os meus desenhos gratuitamente usando o Canva).

O mais importante é lembrar: se você está começando agora, mantenha tudo simples. Não tente fazer desenhos muito complexos logo de início. Começar com esquemas básicos ajuda a entender melhor o espaço e facilita todo o processo de criação do jardim.

Exemplo da divisão dos blocos
Foto de @oscordados


Exemplo da divisão dos blocos
Foto de @oscordados

Evite usar muitas espécies em áreas pequenas, pois isso pode gerar confusão visual (bagunça). Comece com poucas espécies e vá aumentando gradualmente, conforme o jardim se desenvolve e a composição se consolida.

Cada pessoa acaba montando o projeto do seu próprio jeito, mas, se você nunca fez um projeto antes, usar uma proporção básica ajuda muito a começar. Pense nisso como uma regra prática, não como algo rígido.

Em áreas médias ou maiores, uma boa proporção inicial é:
  • 3 espécies do grupo estrutural (G.E) (ou seja, 3 grupos diferentes, com 1 espécie em cada)
  • 9 espécies do grupo temporário (G.T)
  • 2 espécies do grupo basal (G.B)
Em espaços menores, essa proporção pode ser simplificada para:
  • 1 espécie do grupo estrutural (G.E)
  • 3 espécies do grupo temporário (G.T)
  • 1 espécie do grupo basal (G.B)
Essa proporção serve apenas como ponto de partida e pode ser ajustada conforme o espaço, o objetivo do jardim e a sua experiência.

Lembre-se de que um jardim pode levar meses ou até anos para atingir seu auge visual. Durante esse período, observe o crescimento e o comportamento das plantas, ajustando a composição para alcançar o melhor resultado estético.

Grandes paisagistas que já dominam totalmente o plantio naturalista são capazes de criar composições extremamente complexas, que se assemelham a verdadeiras obras de arte.

Vejam o trabalho feito pela Mariana Siqueira, Júlio Pastore, e Amalia Robredo. Esse é o projeto do Jardim Piloto, um jardim naturalista que foi feito no balão (Rotatória) da Escola Parque 210/211 Norte, em Brasília – DF.

Projeto do Jardim Piloto
Foto de
 JARDINS DE CERRADO - Mariana Siqueira | CONAPA 


Plantio no Jardim Piloto
Foto de
 
Amalia Robredo e Dani Azul


Plantio no Jardim Piloto
Foto de
 
Amalia Robredo e Dani Azul


Este é o trabalho de Piet Oudolf, viveirista e paisagista lendário, autor do livro “Planting a New Perspective”.

Desenho do Piet Oudolf para o projeto do jardim
Oudolf Garten - Vitra Campus
Foto de
 
www.vitra.com


Jardim Oudolf Garten - Vitra Campus
Foto de
 
www.vitra.com


Jardim Oudolf Garten - Vitra Campus
Foto de
 
www.vitra.com


História do Paisagismo Naturalista

Piet Oudolf (que ainda está bem vivo em 2026, veja o instagram dele) é considerado o pai do movimento “A Nova Onda Perene” (New Perennial Movement, em inglês), que consiste na valorização contemporânea das técnicas do paisagismo naturalista.

O paisagismo naturalista teve início no século XVIII (uma história longa e complexa, você pode ler sobre ela nesse resumo aqui "As Raízes do Design de Plantio Naturalista"). O movimento ganhou força com o jardineiro William Robinson, a partir da publicação do livro "The Wild Garden", em 1870. Mais tarde (1970 e 1980) voltou a se fortalecer na Holanda e na Alemanha, liderado por especialistas em plantas como Mien Ruys, Karl Foerster e Henk Gerritsen.

No entanto, foi o holandês Piet Oudolf quem tornou esse estilo de plantio conhecido mundialmente, por meio de seus jardins extremamente bem planejados. Há quem diga que o paisagismo naturalista já não seja apenas um estilo de plantio, mas sim uma verdadeira filosofia de vida.

Projetos de Piet Oudolf, mostrando em detalhes as divisões e nomes das espécies utilizadas
Fotos divulgadas por Tony Spencer, no grupo do Facebook Dutch Dreams


Projetos de Piet Oudolf, mostrando em detalhes as divisões e nomes das espécies utilizadas
Fotos divulgadas por Tony Spencer, no grupo do Facebook Dutch Dreams


Projetos de Piet Oudolf, mostrando em detalhes as divisões e nomes das espécies utilizadas
Fotos divulgadas por Tony Spencer, no grupo do Facebook Dutch Dreams


Projetos de Piet Oudolf, mostrando em detalhes as divisões e nomes das espécies utilizadas
Fotos divulgadas por Tony Spencer, no grupo do Facebook Dutch Dreams


Projetos de Piet Oudolf, mostrando em detalhes as divisões e nomes das espécies utilizadas
Fotos divulgadas por Tony Spencer, no grupo do Facebook Dutch Dreams

Cada profissional trabalha de uma forma diferente e, embora todos sigam os mesmos princípios básicos, os projetos nunca são iguais. Cada projeto é desenvolvido para uma área específica, considerando a região e o público ao qual se destina.

Essas aqui são fotos de Naomi Brooks, mostrando a implementação do projeto idealizado por Barbara Katz, Piet Oudolf, e Gregg Tepper no Jardim Botânico de Delaware (EUA), as margens do rio Pepper Creek.

Piet Oudolf segurando partes do projeto feito para o Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do FacebookDutch Dreams


Piet Oudolf segurando partes do projeto feito para o Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams



Projeto para o Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos de www.delawaregardens.org

Essas são as espécies que foram utilizadas no projeto.

Mudas utilizadas no Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams

A ideia é usar plaquinhas ou bandeirinhas para organizar o plantio. Para cada grupo de plantas, você coloca duas plaquinhas iguais no local onde elas serão plantadas.

Uma plaquinha vai com você até onde as plantas estão guardadas, ajudando a pegar a espécie certa e na quantidade correta. A outra fica no canteiro, servindo de referência para conferir se tudo está sendo plantado no lugar certo.

As bandeiras devem conter o nome completo da planta e a quantidade necessária para aquela área. Bandeiras brancas são para as plantas que chegam depois e bandeiras laranja para as plantas que estão na área de preparação.

Bandeiras para marcação no Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


Bandeiras para marcação no Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams

O processo envolve muitas etapas de verificação, medição e consulta ao projeto. Para facilitar a orientação em uma área tão grande, utiliza-se uma grade no terreno. Essa grade é formada por palitos fincados no solo, com fitas amarelas segurando cordas esticadas, que dividem o espaço em quadrados.

Demarcações para o plantio - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do FacebookDutch Dreams


Demarcações para o plantio - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams



Demarcações para o plantio - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams



Demarcações para o plantio - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams

No plantio em grandes áreas, existe a coordenação de muitos detalhes e o envolvimento de muitas pessoas.

Plantio de mudas por voluntários - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


Plantio de mudas por voluntários - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


Plantio de mudas por voluntários - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


Plantio de mudas por voluntários - Jardim Botânico de Delaware - EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


Barbara Katz, Piet Oudolf, e Gregg Tepper, idealizadores do Jardim Botânico de Delaware – EUA, setembro de 2017.

Barbara Katz, Piet Oudolf, e Gregg Tepper, idealizadores do Jardim Botânico de Delaware – EUA
Fotos divulgadas por Naomi Brooks, no grupo do Facebook “Dutch Dreams


O plantio foi feito em setembro de 2017. Cerca de 7 anos depois (2024) ele estava assim:

Antes, em 2017
Jardim Botânico de Delaware – EUA
Foto de
 
Jardim Botânico de Delaware


Depois, em 2024
Jardim Botânico de Delaware – EUA
Foto de
 
Jardim Botânico de Delaware


Depois, em 2024
Jardim Botânico de Delaware – EUA
Foto de
 
Ray Bojarksi


Depois, em 2024
Jardim Botânico de Delaware – EUA
Foto de
 
Ray Bojarksi


Depois, em 2024
Jardim Botânico de Delaware – EUA
Foto de
 
baytobaynews.com


Outras publicações importantes sobre Paisagismo Naturalista

(1) Diferença entre o Paisagismo Tradicional e o Paisagismo Naturalista
(2) A Organização do Paisagismo Naturalista
(3) A Escolha das Espécies no Paisagismo Naturalista

Outras publicações importantes sobre Paisagismo Tradicional

(1) Noções Básicas - Paisagismo
(2) Elementos da Comunicação - Paisagismo
(3) Princípios da Estética - Paisagismo


Esta publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”. Todas as referências utilizadas neste conteúdo estão listadas no guia. 

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