A Organização do Paisagismo Naturalista


João Bobo do Cerrado (Chresta sphaerocephala)
Foto de
@oscordados.mss


Essa publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”.

Pra entender essa publicação, é preciso ter lido primeiro a publicação “Diferença entre o Paisagismo Tradicional e o Paisagismo Naturalista”.


A forma como percebemos uma planta depende diretamente da escala e da proporção do jardim. Uma espécie que funciona bem em um espaço pode não ter o mesmo efeito em outro, dependendo do tamanho do jardim e da relação entre os elementos presentes.

Ao analisar a arquitetura de uma planta (seu porte, forma, volume e modo de crescimento) é possível escolher as espécies mais adequadas para cada projeto.

Para organizar melhor a vegetação e facilitar o planejamento do jardim, as plantas são divididas em três grupos, de acordo com o papel que desempenham na composição paisagística: 
  • Grupo Estrutural (G.E)
  • Grupo Temporário (G.T)
  • Grupo Basal (G.B)

Ilustração do grupo estrutural, grupo temporário e grupo basal
Ilustração de
@oscordados.mss



Grupo Estrutural (G.E)

O grupo estrutural é formado por plantas que seguem o princípio da dominância estética, ou seja, são capazes de se destacar visualmente em relação às demais.

Representação do Grupo Estrutural
Ilustração de
 @oscordados.mss


Ilustração realista do Echinops bannaticus, planta típica do grupo estrutural
Ilustração de
 @oscordados.mss

Sua cor, forma, tamanho e textura fazem com que, no auge do crescimento, essas espécies chamem a atenção no jardim, sendo os primeiros elementos que percebemos.

Grupo estrutural formado por Persicaria amplexicaulis e capim Calamagrostis
Foto de
 
perkgroen.nl

As plantas desse grupo devem manter sua dominância por um período prolongado, garantindo impacto visual por vários meses (se possível). Em projetos com predominância de linhas horizontais (vegetação rasteira), a presença de linhas verticais (caules aéreos, eretos) aumenta a percepção de verticalidade. Por isso, o grupo estrutural costuma ser formado por plantas mais altas.

Eutrochium maculatum
Foto de
 
Minnesota Native Landscapes


Miscanthus sinensis ao fundo
Foto de
 
botanix.com

A dominância confere peso visual, transmitindo sensações de nobreza, força e grandiosidade. Dessa forma, essas espécies devem ter porte elevado, formas amplas e texturas mais grossas ou brilhantes.

Demarcação visual das espécies dominantes - Grupo Estrutural
Foto de Tony Spencer e/ou The New Perennialist


Demarcação visual das espécies dominantes - Grupo Estrutural
Foto de meristemhorticulture.com


Demarcação visual das espécies dominantes - Grupo Estrutural
Foto de www.ballyrobertgardens.com


Demarcação visual das espécies dominantes - Grupo Estrutural
Foto de www.rhs.org.uk

Em resumo, o grupo estrutural deve criar tufos visuais chamativos e duradouros, com ciclo longo de presença no jardim. As plantas podem ter hábito de arvoreta, arbusto, subarbusto ou herbáceo (ervas), com altura média entre 50 cm a 3 metros. Devem ter caules rígidos, capazes de sustentar folhas e flores em grande volume.

Ilustrações feitas baseadas no livro "Planting a New Perspective - Piet Oudolf"
Ilustração de
@oscordados.mss

É desejável que apresentem inflorescências marcantes, como panículas, cachos, umbelas, capítulos, espigas, corimbos ou glomérulos (este último comum em Lamiaceae), garantindo ainda mais destaque visual no jardim.

Ilustrações de inflorescências botânicas
Ilustração de
@oscordados.mss



Grupo Temporário (G.T)

O grupo temporário (também chamado de sazonal ou ocasional) é formado por plantas não dominantes e plantas dominantes temporárias.
Ilustração realista do Hylotelephium telephium, planta típica do grupo temporário
Ilustração de @oscordados.mss

Apesar de as plantas desse grupo poderem exercer a dominância, elas têm características diferentes das plantas do grupo estrutural.

As plantas dominantes do grupo estrutural possuem caules rígidos, capazes de sustentar folhas e flores em grande volume por vários meses (ou seja, são plantas morfologicamente resistentes).

As plantas dominantes do grupo temporário possuem caules e estruturas mais flexíveis, que podem perder a forma em pouco tempo (ou seja, são plantas morfologicamente mais frágeis). Essas plantas podem surgir, desaparecer e reaparecer ao longo do ano, refletindo seu caráter dinâmico (temporário). Um dos principais objetivos do grupo temporário é preencher espaços vazios; por isso, devem ter crescimento rápido e boa produção de sementes (se possível).

Solidago canadensis, uma planta dominante temporária
Foto de 松岡明芳

Verbena bonariensis, uma planta dominante temporária
Foto de
 
www.diggers.com.au

As plantas dominantes e as não dominantes do grupo temporário chamam a atenção por suas cores, flores ou formatos marcantes. Em geral, são espécies de ciclo curto (florescimento rápido), utilizadas principalmente ao redor ou nas margens dos grupos estruturais.

Esse grupo segue o princípio do equilíbrio, sendo distribuído de forma simétrica ou assimétrica em relação aos elementos estruturais do jardim. Posicionar as plantas do grupo temporário ao redor do grupo estrutural ajuda a equilibrar visualmente os pesos desses elementos, promovendo harmonia e unidade na composição do espaço.

Representação do Grupo Temporário
Ilustração de
@oscordados.mss


Demarcação visual de espécies temporárias - Grupo Temporário
Foto de www.usperennials.com

Demarcação visual de espécies temporárias - Grupo Temporário
Foto de digdelve.com

Demarcação visual de espécies temporárias - Grupo Temporário
Foto de terragreenhouses.com


Demarcação visual de espécies temporárias - Grupo Temporário
Foto de extension.okstate.edu

O mais indicado é usar duas ou três espécies de plantas que combinem bem ao longo do ano. Essas plantas devem ser colocadas (dentro da área delimitada) em pequenos grupos, com três ou mais indivíduos juntos. Além disso, alguns exemplares podem ser distribuídos de forma isolada/aleatória (usando mais mudas ou sementes) para ajudar a criar um conjunto mais harmonioso e visualmente integrado.

O grupo temporário é formado principalmente por plantas de hábito herbáceo e subarbustos, geralmente com altura igual ou menor do que as plantas do grupo estrutural. Essas espécies apresentam formas e tipos de inflorescência variados.

Ilustrações feitas baseadas no livro "Planting a New Perspective - Piet Oudolf"
Ilustração de
 @oscordados.mss



Grupo Basal (G.B)

O grupo basal (também chamado de matriz) segue os mesmos princípios do grupo temporário (G.T), mas com algumas diferenças importantes. As plantas desse grupo não exercem dominância e não têm a obrigação de chamar atenção.

Seu objetivo principal é cobrir o solo de forma contínua, atuando como elemento constante no jardim, protegendo o solo e dificultando a entrada de plantas indesejadas.

Ilustração realista da Eurybia macrophylla, planta típica do grupo basal
Ilustração de @oscordados.mss


Representação do Grupo Basal
Ilustração de
 @oscordados.mss


Representação do Grupo Basal
Ilustração de
 @oscordados.mss

O grupo basal é formado principalmente por plantas herbáceas de porte baixo e forrações, que podem ou não formar touceiras, criando uma cobertura uniforme e estável sobre o solo.

Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de meristemhorticulture.com


Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de landezine.com


Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de therockgardensite.com


Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de www.klandarchitect.com


Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de www.klandarchitect.com


Marcação visual de espécies basais - Grupo Basal
Foto de www.digyourgarden.com


Regras e Escolhas no Paisagismo Naturalista

Como já foi comentado, o paisagismo naturalista é um conceito amplo e pode ser aplicado de várias maneiras diferentes. Não existe uma única forma correta de fazer esse tipo de jardim.

Nem todas as abordagens usam a divisão das plantas em grupos. Porém, considerando a realidade da maioria das pessoas no Brasil (que geralmente têm pouco espaço, pouco tempo e poucos recursos), essa divisão é uma das formas mais práticas e acessíveis de criar um jardim naturalista.

Do meu ponto de vista, como Ecólogo e Analista Ambiental, organizar as plantas em grupos ajuda a planejar melhor o jardim, reduz custos e facilita a manutenção ao longo do tempo. Por isso, essa é uma estratégia eficiente para quem está começando ou não pode investir muito.

Para que as plantas nativas sejam mais valorizadas, é importante que mais pessoas passem a cultivá-las. Assim, aos poucos, se fortalece um mercado de produção e venda dessas espécies no Brasil. Esse mercado só vai crescer se as pessoas compreenderem e adotarem os princípios do cultivo naturalista.

A ideia de que “planta nativa morre fácil” geralmente acontece porque elas são cultivadas como plantas ornamentais tradicionais (no paisagismo tradicional), o que nem sempre funciona. Muitas espécies nativas não foram domesticadas e não respondem bem a excesso de adubo, irrigação ou podas constantes.

Pensando em facilitar o aprendizado do paisagismo naturalista, foi por isso que escolhi apresentar essa forma de divisão da vegetação.

Enfim, continuando.

Agora que você já conhece o grupo estrutural, o grupo temporário e o grupo basal (que são a base dessa nossa abordagem) vamos aprender como montar o jardim na prática.

Para isso, você precisa entender sobre as 3 Regras Básicas e como funciona a Escolha das Espécies no paisagismo naturalista.


Abaixo eu explico tudo:

(1) As 3 Regras Básicas do Paisagismo Naturalista

(2) A Escolha das Espécies no Paisagismo Naturalista


Outras publicações importantes sobre Paisagismo Naturalista

(1) Diferença entre o Paisagismo Tradicional e o Paisagismo Naturalista
(2) As 3 Regras Básicas do Paisagismo Naturalista
(3) A Escolha das Espécies no Paisagismo Naturalista

Outras publicações importantes sobre Paisagismo Tradicional

(1) Noções Básicas - Paisagismo
(2) Elementos da Comunicação - Paisagismo
(3) Princípios da Estética - Paisagismo


Esta publicação faz parte do guia “Passo a Passo - Como Fazer Paisagismo Naturalista”. Todas as referências utilizadas neste conteúdo estão listadas no guia. 

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